Organizar a EsperançaTese ao VII Congresso do PSOL/RJ
Rio de Janeiro: O estado das crises econômica, política, social e ambiental

A vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018 consolidou a formação de uma extrema direita organizada na conjuntura política brasileira. Muito embora a família Bolsonaro seja a principal representação pública desse processo, o mesmo transcende a composição do governo federal e encontra múltiplas expressões em diferentes aspectos da sociedade brasileira.

O racismo estrutural, a cultura patriarcal, o passado escravista, a profunda desigualdade, o apartheid urbano, a permanência de elementos da ditadura militar nas Forças Armadas e policiais: elementos estruturais e formativos do Estado brasileiro se somam a fenômenos novos e fenômenos antigos sob nova roupagem, como o aumento da repressão militarizada nas favelas e periferias, seja pelas forças policiais seja pelos grupos de extermínio, milícias e congêneres, a judicialização das relações sociais e políticas, a criminalização da atividade política, o revisionismo histórico, entre outros. Esses processos são acelerados e potencializados pelo quadro de crise econômica aberto pela crise de 2008, pela crise que o Brasil atravessa desde 2014/15 e, novamente, pela crise eclodida pela pandemia da SARS-COV-2. A luta contra o bolsonarismo é, portanto, uma tarefa de médio-longo prazo que está dada desde já e ultrapassa os horizontes de 2022.

O processo nacional de recrudescimento das estruturas políticas e sociais encontra no Rio contornos dramáticos e já presentes no ciclo conjuntural anterior. Em 2012, avaliávamos que o Rio de janeiro passava por um processo de consolidação enquanto uma plataforma exportadora de commodities, alimentada por investimentos do governo federal – promotores inclusive de endividamento estadual -, tanto através do PAC, como dos recursos destinados à realização dos megaeventos (Pan, Copa e Olimpíadas), coesionando localmente setores econômicos como empreiteiras, mercado imobiliário, produtores de commodities e os serviços indiretamente beneficiados, sob a direção política do PMDB de Cabral, Pezão, Picciani e Paulo Melo.

A implementação dessa política abriu, de imediato, uma agenda de luta intensa para a esquerda, em particular na resistência aos impactos territoriais e socioambientais da realização desses projetos, o que permitiu ao PSOL ocupar um espaço de referência nas lutas do período. Este processo foi respondido com o aumento constante da repressão policial em favelas e em territórios atingidos e pelo aumento da criminalização dos movimentos sociais, potencializada ainda pela resposta repressiva aos amplos processos de mobilização de 2013 e que, no Rio, contaram com o elemento de resistência aos megaeventos. Foi do general Braga Netto, em pronunciamento sobre a intervenção federal, a frase “o Rio de Janeiro é um laboratório para o Brasil”. O Haiti, primeira república negra do mundo, foi o campo de teste onde o general e outros militares brasileiros se prepararam para a missão fluminense. O aumento da repressão nos territórios não recuou após a conclusão do ciclo de megaeventos, movido pelos interesses das milícias em franca expansão. O fim desse ciclo pode ser traçado em torno de dois marcos: a redução dos investimentos públicos federais no estado simultânea à crise econômica nacional a partir de 2014 e o impacto político da Operação Lava-Jato. 

O estado do Rio sofre, historicamente, com uma crônica falta de diversificação econômica que por um longo período não se converteu em crise, devido ao constante aumento de recursos advindos do petróleo. Quando da crise dos preços do barril, não foi somente essa cadeia produtiva a ser afetada, mas também o conjunto das finanças do estado, suas políticas públicas e serviços e fundamentalmente, as condições econômicas de unidade política da burguesia fluminense. Ao mesmo tempo, a Operação Lava-Jato, a partir de 2014, gerou forte impacto tanto para a crise política quanto econômica, mostrando-se crucial para o ocorrido em duas cadeias produtivas até então vigorosas e interligadas: a de petróleo e gás e a da construção civil. O principal impacto foi o da acefalia política da direita e da burguesia do Rio de Janeiro. As prisões de dezenas de deputados e quatro ex-governadores abriram uma voraz disputa por ocupação dos espaços políticos disponíveis, permitindo reorientações da política econômica do estado e, também, dos esquemas de corrupção deixados por Cabral.

Esse contexto de crise multidimensional somado à onda política criada pelo Bolsonarismo, ao apoio direto da família Bolsonaro, à falácia de político antissistêmico e à máquina de fake news criada pela extrema direita geraram um terreno fértil para a eleição de Wilson Witzel ao governo estadual em 2018. Sua candidatura tem como origem um grupo de atores que, como comprovado posteriormente, operava esquemas de corrupção em contratos com o poder público, em particular os das OSs da saúde estadual.

A operação de compor um governo com o que existia dos mais velhos esquemas do Rio de Janeiro foi ocultada às custas da vida dos trabalhadores. Witzel buscava ser mais sanguinário que Bolsonaro, no que para ele era somente uma operação de marketing. Lavando as mãos para a condução das políticas de segurança pública, extinguindo a Secretaria de Segurança Pública para dar status de secretários aos comandos das polícias Militar e Civil, Witzel deu autonomia e foi cúmplice da barbárie conduzida no dia-a-dia das operações policiais nas favelas, e pôde se concentrar em aprofundar a estruturação de um discurso social racista e genocida que buscava ampliar em dimensão e enraizamento o discurso social do inimigo interno, mais uma vez localizado nas favelas, mas sem deixar de colocar a esquerda como a representação política da criminalidade.

Com uma maioria sólida na ALERJ, Witzel conseguiu em seu primeiro ano aprovar a totalidade de sua pauta econômica e política com maioria considerável no parlamento estadual. No entanto, poucos meses depois, a chegada da COVID-19 dissolveu o relativo conforto que teve em seu primeiro ano de governo, dada a breve recuperação do preço do barril do petróleo, reduzindo a já pouca capacidade do governo do estado de conduzir política econômica autônoma. Essa nova situação de profunda dependência do estado do Rio de Janeiro de recursos do governo federal permitiu a Bolsonaro e Paulo Guedes utilizarem o Regime de Recuperação Fiscal do Estado como instrumento de chantagem para a aplicação de sua política econômica privatista e embate político com aqueles que buscassem ser seus opositores. Não à toa, Witzel foi impeachmado no dia anterior do prazo limite para a renegociação da dívida do estado do Rio com a União. No mesmo momento em que a ALERJ votava o impeachment, Castro se encontrava no gabinete do filho 01 no Senado.

Os impactos da agenda ultraliberal imposta por Guedes e Bolsonaro e conduzidas por Witzel e depois Castro vem tendo impactos muito nocivos para a população do nosso estado. Vivemos, já desde antes da pandemia, um colapso da saúde pública e vemos a educação pública cada vez mais sucateada. Esse ajuste fiscal draconiano desconhece que investimentos sociais – na educação, ciência e tecnologia, e outras áreas – facilitam uma possível saída da crise.

Nos últimos meses, vimos ainda a privatização da CEDAE, como condição obrigatória para a manutenção do estado no Regime de Recuperação Fiscal. Ainda que a burguesia tenha, inicialmente, sucateado a empresa de água e esgoto e feito uma ampla campanha de difamação contra ela, sabemos que a privatização não melhorará a prestação dos serviços de abastecimento de água e saneamento básico – condições absolutamente fundamentais para a vida humana.

Mesmo repactuado com Bolsonaro, Cláudio Castro assumiu a condução do Palácio Guanabara mantendo uma mala pronta junto à porta para a eventualidade de também ser despejado. As mesmas operações que comprovaram a existência de organização criminosa na gestão da saúde de Witzel, apontaram suspeitas de desvios e superfaturamento de contratos em outras pastas, particularmente as controladas diretamente pelo então vice-governador, o que lhe garante a preocupação permanente de uma continuidade das investigações pelo MPF ou MPE. 

Além disso, Castro não conseguirá reproduzir em seu governo a mesma coesão que Witzel conseguiu em 2019, reunindo o Bolsonarismo e a direita tradicional/centrão. Está nítido para a burguesia fluminense que não existirá um programa de recuperação econômica por parte do governo federal que permita maior autonomia ao estado. Entretanto, uma parcela dessa burguesia sabe que depende, no longo prazo, da recuperação da capacidade de investimento do estado, especialmente através de isenções fiscais, para sobreviver à guerra fiscal existente nas diferentes cadeias produtivas. Esse setor se encontra em contradição com o bolsonarismo no estado e tem animado a existência de um centrão estadual independente do governo de Castro e capaz de lhe impor derrotas pontuais, como na aprovação de um auxílio emergencial. Esse setor aguarda mais nitidez de para onde apontam os ventos nacionais para definir sua relação com o campo bolsonarista no Rio.

Atravessando todo o último período, as milícias expandiram, enraizaram-se e, em certa medida, se transformaram. As milícias que hoje atuam no estado do Rio de Janeiro conservam seus métodos e sua vocação para disputa de poder ancorada em dominação territorial. No entanto, fizeram o que muitos economistas liberais não conseguiram com o estado do Rio de Janeiro: diversificaram as suas receitas.

Com seu “modelo de negócios” pouco afetado pela inexistência de medidas do poder público em seu combate, os últimos 10 anos foram de refinamento e ampliação de atividades. Uma série de atividades criminosas antes pulverizadas se encontram dentro do guarda-chuva da milícia. Também foram adotadas práticas típicas de outras atividades como a lógica de terceirização que criou o escritório do crime, responsáveis pela bárbara execução de nossa companheira Marielle Franco. A idéia de consórcios e franqueamento também se apresentou como saída de crescimento viável, com a absorção nos quadros da milícia de antigos membros do tráfico de regiões que fossem então dominadas, permitindo a manutenção do controle do território por esses últimos em troca de compensações  financeiras e divisão dos lucros. 

Todos esses elementos em desenvolvimento mudam de qualidade nos anos de governo de Witzel/Castro. A ação coordenada entre governos estadual e federal para conceder autonomia aos batalhões policiais e para desmontar as estruturas de inteligência permitem, hoje, um controle sem precedentes nas ações das forças policiais de nosso estado e seus efeitos imediatos foram um numero recorde de ações policiais com enorme perda de vidas de jovens negros e negras, em uma série de operações que careciam a mais básica justificativa que não a reafirmação de uma política de ódio e o serviço dos interesses escusos da expansão territorial das milicias. Das 569 operações policiais realizadas no ano de 2019, apenas 6,5% foram realizadas em áreas de milícias.

A estabilidade alcançada pela milícia permitiu, em poucos anos, o avanço em mais terrenos onde as políticas públicas são inexistentes, em particular na questão da moradia. Se há poucos anos ouvíamos repetidas notícias de controle por milicianos de condomínios do Minha Casa Minha Vida, rapidamente assistimos casos como os desabamentos da Muzema, em prédios construídos pela própria milícia, e nesse momento acompanhamos as ofensivas para o destombamento de diversas áreas do estado para a incorporação das mesmas no mercado imobiliário já controlado nesses territórios pelas milícias, tornando esse setor um importante agente da especulação imobiliária na região metropolitana do Rio de Janeiro, inclusive em áreas de proteção ambiental.

O cenário de crise econômica, política e social e ambiental, combinado com o controle territorial das milícias sintetiza no Rio de Janeiro a expressão máxima da necropolítica nacional. A classe trabalhadora em nosso estado vivencia o desemprego estrutural e conjuntural que leva tantos ao desalento. A ausência de auxílio emergencial prolonga a carestia e a fome. A ausência de vacinas e de políticas de renda que garantam o direito ao isolamento, e as constantes operações policiais nas favelas, levam milhares à morte. Os atingidos mais brutalmente são as mulheres, negras e negros, e moradores de territórios de favelas e periferias. Aqui destacar que as mulheres, além de sobrecarregadas com as tarefas domésticas, ocupam a maioria das principais tarefas que permanecem em atividade durante a pandemia – tais como enfermeiras, faxineiras, atendentes de supermercados, entre outras. É tarefa primordial da esquerda organizada direcionar suas ações e formulações neste sentido, dialogando e construindo conjuntamente com esses movimentos e parcelas da sociedade de onde surgem as mais importantes experiências de resistência do período.

Vale lembrar que importantes processos de luta social em anos recentes no Brasil e no mundo foram impulsionados por esses setores, como o “Fora Cunha” e o Black Lives Matter, para citar apenas alguns exemplos. Só será possível um processo de ampliação das mobilizações e lutas sociais se conseguirmos ampliar nosso diálogo com esses setores.

Reafirmar o PSOL como alternativa

Ao longo dos últimos anos, o PSOL se afirmou como principal força de oposição ao projeto implantado pelo PMDB no estado do Rio de Janeiro. Nas eleições de 2018, nosso partido conseguiu resultados expressivos elegendo Renata Souza, Flávio Serafini, Mônica Francisco, Eliomar Coelho e Dani Monteiro, formando, pela primeira vez na história do PSOL RJ, uma bancada majoritariamente feminina e negra.

Em 2020, numa eleição extremamente difícil para o conjunto de toda a esquerda, o PSOL deu seu recado no Rio de Janeiro: elegemos a maior bancada de vereadores na capital, três vereadores em Niterói e ainda estreamos nas Câmaras Municipais de Petrópolis e São Gonçalo. Além disso, o PSOL foi o partido mais votado do setor progressista em importantes municípios do estado, como Duque de Caxias, Campos e Volta Redonda, entre vários outros.

Apesar de todas as dificuldades que tivemos em fazer campanhas em meio à pandemia, o PSOL saiu mais fortalecido dessas eleições. Esses expressivos resultados eleitorais são reflexo real do peso político que temos hoje no estado. Da elaboração do programa à construção das campanhas, o destaque sempre foi a intensa participação da militância partidária e dos movimentos sociais. Construímos, por exemplo, um programa participativo e permeável através da campanha “Se o estado do Rio fosse nosso” em  2018, e em 2020 o PSOL teve mais de 500 candidatos em todo estado demonstrando um crescimento não só territorial, mas também em qualidade, com chapas cada vez mais plurais.

Como diz o nosso companheiro Chico Alencar, queremos um partido de massas politizadas e organizadas, jamais massa de manobra. Em seus primeiros anos, mais especificamente até 2013, o PSOL do Rio de Janeiro tinha outro perfil: embora tivesse um grande número de filiados, tinha uma vida orgânica muito frágil. A partir de 2013, o PSOL-RJ é cada vez mais reconhecido nacionalmente, graças à sua militância numerosa, pela vida orgânica pulsante e pela permanente capacidade de seguir encantando lutadoras e lutadores. 

O PSOL, hoje, tem militância em cerca de 70 municípios no Rio de Janeiro  (de um total de 92), ainda que permaneça o desafio de enraizar-se mais profundamente nas diversas regiões do estado. Importante destacar também o fortalecimento dos setoriais, que passaram a ser instâncias fundamentais de formulação e organização de pautas caras ao partido e à esquerda como um todo. Até 2013, seu funcionamento se dava apesar da direção partidária da época. Hoje, temos uma situação inversa: cada vez mais setoriais estadualizados e a cada ano que passa o PSOL passa a existir em mais municípios com uma militância orgânica, programática e inserida nos movimentos sociais.

Contudo, permanece aberto o desafio de conseguir envolver cada vez mais a base partidária nos processos de construção programática, onde realmente se desenham os rumos políticos do partido.

Nosso programa e sua relação com o nosso  modelo de partido

As nossas lutas se efetivam na totalidade quando têm em seu horizonte a construção de uma sociedade livre de exploração para todas e todos. Por isso, reafirmamos a necessidade de construção de um partido onde a organização compreenda a classe trabalhadora como um sujeito concreto e dinâmico. Ou seja, acreditamos que o gênero, a raça e a orientação sexual influenciam diretamente na capacidade do capital de produzir mais exploração sobre as mulheres, a negritude e as pessoas LGBT’s. 

Além disso, acreditamos que os sujeitos da classe trabalhadora hoje, cada vez mais explorados, são também cada vez mais diversos e ocupam postos de trabalho que demandam experiências organizativas para além das tradicionais existentes. É o caso dos trabalhadores de aplicativos, camelôs, trabalhadores autônomos e informais. É importante destacar que, com a flexibilização das leis trabalhistas e o crescente número de desempregados no país, a dimensão da dinâmica social e de vida nos territórios é cada vez mais importante na organização da nossa classe.

É central também a compreensão de que o ecossocialismo deve ser parte estruturante do nosso programa. Compreender que a crise que vivemos hoje é fundamentalmente resultado da exploração produtivista é um passo fundamental para conseguirmos superar o capitalismo. Derrotar o capitalismo deve pressupor combater a exploração da classe trabalhadora e também a exploração desenfreada do meio ambiente. Não há saída possível que não considere superar ambas explorações.

Se nosso programa expressa tal compromisso, cabe à direção criar condições de efetivá-lo junto à base partidária. Não são “pautas acessórias” e nem secundárias, e tampouco se contrapõem à luta das trabalhadoras e trabalhadores, ao contrário, fazem o PSOL ser o que é: um partido que é referência na luta contra todas as formas de preconceito e também na busca da sua superação.

Não podemos ter dúvidas de que o combate às explorações e opressões exige a reafirmação do nosso programa, sem renunciar a ele como atalho para o crescimento institucional. A revolução começa nas relações do cotidiano, acabando com o machismo, a homofobia e  a violência de gênero, bem como eliminando o racismo na política, defendendo a igualdade real nos espaços de poder, começando pelas instâncias partidárias e valorizando a construção de um partido vivo e militante desde o fortalecimento de seus núcleos de base e setoriais. 

Ainda que a eleição de parlamentares mulheres, negras e negros e LGBTQI+ pelo PSOL tenha se ampliado nas últimas duas eleições, destacamos que segue viva a necessidade de seguir ampliando o protagonismo desses setores no debate sobre a tática eleitoral do partido para o próximo período.

Um partido pronto para enfrentar novos desafios deve ser programático, democrático e cada vez mais estadualizado

Nos últimos anos o PSOL RJ, junto ao PSOL Nacional, teve o mérito de se posicionar corretamente ao enfrentar os ataques à democracia em nosso país e compreender o papel nefasto que cumpriu o Judiciário na política brasileira. Atravessamos o período mais difícil de nossa história logo no início do atual mandato: tivemos uma intervenção militar e na sequência o assassinato da nossa companheira Marielle Franco, que até hoje segue sem respostas, apesar das inúmeras mobilizações e iniciativas que fizemos cobrando respostas. Ainda tivemos nesta última gestão a eleição de Bolsonaro e a deflagração de uma pandemia sem antecedentes.

Apesar de todas as dificuldades que a conjuntura nos impôs e ainda nos impõe, avaliamos que o PSOL deu importantes saltos de qualidade. Seja na sua maturidade política, na sua expansão, não só quantitativa, mas qualitativa pelo estado e também pelo avanço do seu funcionamento interno técnico e político.

A gestão a se concluir neste Congresso, liderada por nossa tese, fez avançar a organização administrativa do PSOL, necessária para enfrentar os desafios de um partido em crescimento, em um momento de ascensão da judicialização da vida política. Fortalecemos a política da gestão anterior e mantivemos uma equipe profissionalizada nas áreas contábil e jurídica; regularizamos as prestações de contas das finanças partidárias; estabelecemos critérios democráticos e eficientes para a administração dos recursos. Conseguimos manter essa equipe apesar  das dificuldades financeiras que atravessamos.

Nesses últimos meses, conseguimos contratar um profissional que será fundamental para o início de uma estruturação de uma equipe que nos auxilie na comunicação externa. Mas ainda precisamos avançar num plano de comunicação estadual mais amplo que garanta um melhor fluxo de informações interna entre diretório estadual e diretórios municipais, bem como propomos construir uma rede de comunicadores do PSOL a nível estadual, junto à militância dos diretórios municipais, reativando o site e construindo perfis nas diferentes redes sociais

Em 2020, tivemos pela primeira vez o Fundo Eleitoral para eleições municipais e, mesmo com muitas limitações, conseguimos aprovar por consenso na direção a divisão do fundo que seria enviado aos municípios. Ainda conseguimos garantir um acompanhamento permanente da nossa equipe da sede orientando os dirigentes municipais semanalmente, bem como assessoria jurídica e contábil para todas as candidaturas do PSOL no estado, além de realizar um curso profissional de comunicação para campanhas eleitorais para os diretórios. Após as eleições seguimos auxiliando os diretórios com contrato jurídico e contábil  diante da exigência legal de que cada diretório municipal esteja regularizado. Sendo o PSOL RJ, um dos únicos, senão o único diretório estadual do PSOL no Brasil a auxiliar os diretórios municipais em suas regularizações.

Devido às dificuldades financeiras que tivemos,  a produção de materiais do partido ficou aquém do que gostaríamos, apesar de ter se dado em quantidade crescente. Julgamos fundamental seguir investindo recursos para disponibilizar, cada vez mais, materiais impressos e bandeiras que sustentem as atividades de agitação e propaganda em todos os municípios. Também é importante que o partido invista mais em atividades de formação política, contribuindo para apresentarmos nosso programa e na formação de novos quadros em todos os municípios. Precisamos potencializar iniciativas de debates programáticos e formativos como já fizemos e também ampliar com novas iniciativas, buscando sempre que possível parceria com os setoriais e diretórios municipais. 

Acreditamos que podemos ampliar para o diretório estadual e/ou para diretórios municipais do interior a iniciativa implantada no diretório do PSOL Carioca de arrecadação coletiva, no sentido de seguir trabalhando sob a concepção do financiamento militante e criar condições para melhorar ainda mais as possibilidades de construção partidária. Também contribuímos para a democratização do partido, com um funcionamento mais regular das instâncias de direção e uma preocupação de ampliar a circulação de informações para o conjunto da militância partidária e, nesse sentido, insistimos que no próximo período precisamos pensar um equipe mais ampla que pense uma política de comunicação para dentro e para fora.

Todas essas iniciativas passam por compreender que o PSOL deve ser um partido cada vez mais estadualizado. Ressaltamos como uma das formas de reconhecimento desse esforço de estadualização o fato de termos companheiras e companheiros de mais de 30 municípios do estado participando do processo de construção desta tese.

Acreditamos que avançamos muito nessa tarefa no último período, mas ainda é preciso muito mais. Precisamos seguir impulsionando a construção e o fortalecimento dos diretórios municipais em todo o estado. Para isso, precisamos de uma direção atuante junto à militância nas cidades, é preciso impulsionar cada vez mais agendas dos nossos parlamentares em municípios para além da região metropolitana. Também achamos válido iniciar um debate democrático para tentar viabilizar sedes regionais, assim que conseguirmos regularizar as finanças do partido.

Os desafios políticos organizativos do PSOL crescem na mesma proporção que o PSOL cresce e se enraíza. Temos orgulho em reconhecer a trajetória do PSOL até aqui, que se ampliou muito para além da região metropolitana e hoje tem uma militância orgânica e programática em todas as regiões do estado. Não podemos negar que é ainda muito pouco perto do que podemos e precisamos fazer. Como diria o poeta, “se muito vale o já feito, mais vale o que será”. Precisamos de um partido vivo e militante, porque é urgente defender a vida e derrotar o bolsonarismo!

Eleições 2022

As discussões sobre o processo eleitoral de 2022 no Rio de Janeiro têm sido aceleradas pelos rumos da conjuntura nacional. Muito embora siga comprometida com um programa ultraneoliberal, as perdas econômicas produzidas pelos erros criminosos do governo federal faz com que parcela considerável da burguesia comece a perceber a impossibilidade de um governo Bolsonaro “domesticado”. Ainda assim, evitam iniciativas de abreviar seu governo e permanecem na tática de “sangrá-lo” até 2022.
A nível estadual o centro dos debates da burguesia fluminense se dará em torno de uma solução política e econômica para o estado que caminhe de mãos dadas com o processo eleitoral em âmbito nacional. Uma ampla gama de setores da direita tradicional desejariam a construção de um polo alternativo capaz de negociar um programa de resgate econômico menos draconiano com a União, que permita ao estado a recuperação de alguma capacidade de investimento para minorar a crise enfrentada pelo parque produtivo via concessão de benefícios fiscais. Entretanto, embora estejam em contradição com o campo bolsonarista, esses setores só romperão explicitamente com o mesmo se houver também condições políticas que permitam a derrota de Bolsonaro no processo eleitoral. Ainda assim, tal movimento não significa uma ruptura com um programa de austeridade neoliberal, muito pelo contrário, tende a aprofundá-lo, uma vez que há uma forte pressão pelo direcionamento de recursos públicos para diversos setores empresariais.

Com relação às milícias, muito embora possamos afirmar que existe profunda relação da família Bolsonaro com as mesmas e seja notória a identificação política das forças de segurança com o projeto bolsonarista, seria imprudente afirmar que as milícias seriam contrariadas com uma vitória eleitoral da direita tradicional e da centro-direita. Um projeto de governo voltado para a recuperação de setores burgueses sem investimentos significativos em políticas sociais seria terreno fértil para a legitimação local desses setores e para expansão de suas iniciativas de transporte, imobiliárias e em torno de qualquer serviço no qual possam ocupar as lacunas do Estado. 

Em nossa perspectiva, um programa anti-fascista e anti-milícia só é possível se for, também, anti-neoliberal. É o momento de nos defrontarmos com os discursos anti-Estado e apontar saídas para a crise em um tripé de atendimento às necessidades mais urgentes da classe trabalhadora, geração de empregos e recuperação econômica do estado, e redução do vácuo de políticas públicas que permite o crescimento das milícias. Programas e políticas públicas que reestabeleçam serviços e garantias para a população devem estar no centro de nossas agitações, tais como, propostas para zerar o déficit habitacional, iniciativas de combate à fome, garantia de renda mínima mesmo após a atual pandemia, reconstituição das redes básicas de saúde, tarifa zero ou redução das tarifas de transporte, ampliação do acesso a saneamento básico. É necessário que se coloque como condição sine qua non para essas iniciativas e para uma política de segurança séria a paralisação completa das operações policiais de combate ao varejo de drogas, reorientando a política de segurança para a inteligência policial e retirando a autonomia de batalhões garantida por Witzel e Cláudio Castro. Qualquer programa que vá nesse sentido deve partir da premente necessidade de suspensão das dívidas do estado do Rio de Janeiro com a União. Frente à política da morte, devemos ser intransigentes na defesa da vida em todas as suas dimensões.

A gravidade da situação conjuntural do Rio de Janeiro exigirá imensa responsabilidade da esquerda de conjunto e, em especial, do PSOL, por ser o principal setor da esquerda no estado atualmente. Esse campo deve trabalhar para impedir a consolidação de um bloco de poder miliciano, que é a base do bolsonarismo em nosso estado, além de ser também uma base conveniente para a direita tradicional. Não podemos recair em sectarismos e nem em imobilismos. O partido deve ser protagonista no chamado imediato à unidade em torno de um programa de esquerda. 

Não nos cabe esperar 2022 para disputar espaço frente ao discurso hegemônico de saída da crise através da austeridade, praticado pelo bolsonarismo e, também, pela direita tradicional. É fundamental que o partido se some, ainda em 2021, aos processos de mobilização concreta e de solidariedade de classe que surgem daqueles que estão mais diretamente atingidos pela crise. Está nas mobilizações das favelas e periferias, das mulheres, daqueles que sofrem com a insegurança alimentar, dos negros e negras que resistem à violência das milícias e do estado, as experiências de luta que materializarão nosso programa para o período e que permitirão que as resistências se convertam em ofensiva.

2 comentários em “

  1. Só acho que vale ressaltar que o bolsonarismo começa antes do Bolsonaro. Ele só ocupou o lugar polįtico que um movimento de direita já se organizava há anos (talvez décadas).
    E acho que vale também lembrar da proximidade do atual governador com a familícia. E que ele pode ser até mais perigoso que o Witzel, pois continua e potencializa sua gestão, como vimos no Jacarézinho.

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